LAURA,
Às vezes tudo grita em mim de repente:
paixão, angústia, solidão.
Às vezes tudo salta do silêncio.
Como a flor do Ipê que sobressai amarela por entre as árvores de folhas verdes.
Tudo que me seduz,
me tortura.
Todas as emoções em mim explodem.
As casinhas que passam na estrada
me enternecem.
E dentro delas ninguém conhece a minha dor.
Não te ter às vezes me entristece.
Você me esquece enquanto enriquece
num escritório da Paulista.
Quero crer que nada acontece;
o mundo para e você paira à minha vista.
Mas o tempo não espera,
corre.
E a esperança escorre por debaixo da porta.
Às vezes tudo grita em mim
e é como nada.
Como água que se esfumaça e precipita.
“Como uma onda no mar”.
Laura, você sabe, tudo passa...
só você teima em me habitar.
[29.07.1995]
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domingo, 11 de maio de 2014
sábado, 22 de março de 2014
Cartas a Laura (I)
LAURA,
Estou partindo.
Já chorei por ti tudo que podia.
Levo em meu peito um corte profundo,
nosso brinquedo quebrado,
nosso segredo roubado,
meu amor profanado...
Deixo contigo meu mundo.
Mas levo comigo a cor dos teus olhos.
Levo tua foto no porta-luvas.
Estou partindo.
Já jurei pra ti tudo que podia.
Já deixei meus versos,
meus sonhos,
minha alegria.
Não posso mais ficar.
Já vou.
Talvez te encontre algum dia.
[06.05.1994]
Estou partindo.
Já chorei por ti tudo que podia.
Levo em meu peito um corte profundo,
nosso brinquedo quebrado,
nosso segredo roubado,
meu amor profanado...
Deixo contigo meu mundo.
Mas levo comigo a cor dos teus olhos.
Levo tua foto no porta-luvas.
Estou partindo.
Já jurei pra ti tudo que podia.
Já deixei meus versos,
meus sonhos,
minha alegria.
Não posso mais ficar.
Já vou.
Talvez te encontre algum dia.
[06.05.1994]
domingo, 2 de março de 2014
Cartas a Laura (XXI)
LAURA,
Os cavalos estavam muito agitados hoje.
É a chuva que se aproxima.
Vai começar a época das cheias.
Vi Gustavo cavalgando um potro malhado muito bonito.
Minha mãe me preparou pra ir para a escola.
Ontem fiz amor contigo.
Tua filha veio correndo me abraçar,
então eu toquei um blues no violão,
mas faltava uma corda.
No entanto eu olho e vejo todas as cordas lá.
É porque me falta um dedo.
Vi Alice ontem.
Disse que estava atrasada porque tinha um chá na casa da Rainha de Copas.
Ou seria do Chapeleiro Louco?
O Gato de Botas percorreu, num só pulo, sete mil léguas e descobriu o Brasil.
Então ele viu os índios nus e fundou o naturismo.
Hoje, o Dr. Jivago esteve aqui em casa
e disse que o caso era muito sério.
O inverno tem feito muitas vítimas e sua amada está longe.
Eu disse-lhe que tudo bem porque, pelo menos, ele tem o “tema de Lara”,
enquanto eu, de Laura, não tenho nada.
Os cavalos estavam muito agitados hoje.
É a chuva que se aproxima.
Vai começar a época das cheias.
Vi Gustavo cavalgando um potro malhado muito bonito.
Minha mãe me preparou pra ir para a escola.
Ontem fiz amor contigo.
Tua filha veio correndo me abraçar,
então eu toquei um blues no violão,
mas faltava uma corda.
No entanto eu olho e vejo todas as cordas lá.
É porque me falta um dedo.
Vi Alice ontem.
Disse que estava atrasada porque tinha um chá na casa da Rainha de Copas.
Ou seria do Chapeleiro Louco?
O Gato de Botas percorreu, num só pulo, sete mil léguas e descobriu o Brasil.
Então ele viu os índios nus e fundou o naturismo.
Hoje, o Dr. Jivago esteve aqui em casa
e disse que o caso era muito sério.
O inverno tem feito muitas vítimas e sua amada está longe.
Eu disse-lhe que tudo bem porque, pelo menos, ele tem o “tema de Lara”,
enquanto eu, de Laura, não tenho nada.
[12.04.1997]
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Mudo encanto
Queria te ver.
Só te ver. Sem precisar falar,
sem precisar ouvir.
Te ver só, sem nem precisar sorrir.
Só nós dois.
Tecendo silêncios pra nos vestir
com as vestes dos sonhos
de conjugar verbos tão prenhes
pra nos libertar,
pra nos redimir,
pra nos enlaçar,
pra nos envolver,
até nosso silêncio emudecer.
[12.07.2013]
Só te ver. Sem precisar falar,
sem precisar ouvir.
Te ver só, sem nem precisar sorrir.
Só nós dois.
Tecendo silêncios pra nos vestir
com as vestes dos sonhos
de conjugar verbos tão prenhes
pra nos libertar,
pra nos redimir,
pra nos enlaçar,
pra nos envolver,
até nosso silêncio emudecer.
[12.07.2013]
sábado, 23 de março de 2013
Autopsicofagia
O poeta é um usurpador.
Rouba tão solertemente,
que chega a fingir sua dor
a dor de outro vivente.
[??.0?.2013]
Rouba tão solertemente,
que chega a fingir sua dor
a dor de outro vivente.
[??.0?.2013]
sábado, 28 de abril de 2012
De repente
De repente era tudo muito simples,
como, aliás, sempre foi
e nós não queríamos ver.
De repente do papel saiu a rima
e da grama saltou o canto,
o profano tornou-se santo,
e éramos só nós dois
e éramos tantos.
De repente da vida fez-se o encanto
e o riso leve calou o pranto
e a sua última lágrima tornou-se vento.
De repente do seu beijo fez-se o momento,
do seu abraço fez-se o alento
e o seu olhar foi meu recanto.
De repente da areia fina fez-se o segundo,
do seu corpo fez-se o meu mundo
e da palavra fez sentimento.
De repente o verso foi mais profundo,
da rocha fez-se acalanto
e da dor fez-se o rebento.
De repente fez-se o encontro,
e éramos todas as frases,
e éramos um só ponto.
[13.07.1994]
como, aliás, sempre foi
e nós não queríamos ver.
De repente do papel saiu a rima
e da grama saltou o canto,
o profano tornou-se santo,
e éramos só nós dois
e éramos tantos.
De repente da vida fez-se o encanto
e o riso leve calou o pranto
e a sua última lágrima tornou-se vento.
De repente do seu beijo fez-se o momento,
do seu abraço fez-se o alento
e o seu olhar foi meu recanto.
De repente da areia fina fez-se o segundo,
do seu corpo fez-se o meu mundo
e da palavra fez sentimento.
De repente o verso foi mais profundo,
da rocha fez-se acalanto
e da dor fez-se o rebento.
De repente fez-se o encontro,
e éramos todas as frases,
e éramos um só ponto.
[13.07.1994]
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Acontece comigo também
Tentei secar os olhos de Maria
e não consegui.
Suas mãos frias, eu não pude reter.
Moveu-se para frente.
Balançou-se.
Gemeu.
Abracei-a por trás.
Aproximei sua cabeça do meu peito.
Soluçou.
Fechei meus olhos e continuei a segurar seu rosto.
Docemente.
Gentilmente.
Acalmou-se. Um pouco.
Não olhou para mim.
Olhava para dentro de si.
Para além.
Sonhara.
Eu sabia com o quê.
Acontece, às vezes. Comigo também.
[18.01.2009]
e não consegui.
Suas mãos frias, eu não pude reter.
Moveu-se para frente.
Balançou-se.
Gemeu.
Abracei-a por trás.
Aproximei sua cabeça do meu peito.
Soluçou.
Fechei meus olhos e continuei a segurar seu rosto.
Docemente.
Gentilmente.
Acalmou-se. Um pouco.
Não olhou para mim.
Olhava para dentro de si.
Para além.
Sonhara.
Eu sabia com o quê.
Acontece, às vezes. Comigo também.
[18.01.2009]
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Sanguínea madrugada
Nada impede que eu te ame. Foram vinte? Trinta anos? Pouco importa: nada impede que eu te ame. O tempo e a distância intransponíveis não impedem que eu te ame. Como sempre. Como desde o primeiro dia. Nossos brinquedos, nossas brigas, nossa mútua compreensão, nossos desentendimentos. Quarenta anos seriam? Fossem cem e, ainda assim, eu te amaria. Nem a desdita, esta ávida pantera, nem mesmo ela me impede de te amar. O fígado que sofre, a dor que vem da medula, a vertigem do corpo no espaço, o coração que fraqueja, nada impede. Além da existência, por quantos anos restarem, até o fim dos dias, nada me impedirá de te amar.
[11.09.2011]
[11.09.2011]
domingo, 13 de março de 2011
Tempestade
Quando o mar bater mais forte
e nos jogar pra fora do barco,
talvez não haja mais mar
e talvez não haja mais barco.
[23.07.1991]
e nos jogar pra fora do barco,
talvez não haja mais mar
e talvez não haja mais barco.
[23.07.1991]
domingo, 6 de março de 2011
Achei bela morena
Tenho escrito muito pouco. Não à toa, fico catando poemas do passado para publicar na minha página no Multiply. Nas duas ou três vezes por ano em que me ocorre uma nova poesia, tenho que reaprender a escrever. Deve ser por isso que em dezembro me saiu este soneto que chamei "Itororó". O formato de dois quartetos e dois tercetos, todo rimadinho, era coisa que eu fazia há mais de vinte anos. Mas, enfim, já que perdi a prática...
O título faz referência à cantiga de roda ("Fui no itororó, beber água não achei / achei bela morena..."). Aliás, um título controverso, já que há quem cante "tororó", sem o i. Na dúvida, fiquei com itororó mesmo, que significa "pequena cachoeira". Gosto da cachoeira, que pode ter vários significados no poema.
Soa bobo, o poeminha. O ritmo, a música, o tom, são meio arcaicos. E, no entanto - para mim ao menos -, há muitas imagens por trás, algumas referências e até histórias que podem ser minhas ou de qualquer um. Não espero que gostem nem que entendam. Os dois meses que levei para colocar as vírgulas nos lugares certos (eu acho), trocar umas palavras e encontrar o último verso não adiantaram grande coisa: continua soando pueril. De qualquer forma, compartilho, torcendo para que uma ou outra pessoa entenda e consiga ver mais do que um mero soneto. Quem quiser, pode deixar sua interpretação aqui. Impressões negativas serão recebidas com humildade. :-)
Itororó está disponível em http://eduardoviana.multiply.com/journal/item/22/22.
O título faz referência à cantiga de roda ("Fui no itororó, beber água não achei / achei bela morena..."). Aliás, um título controverso, já que há quem cante "tororó", sem o i. Na dúvida, fiquei com itororó mesmo, que significa "pequena cachoeira". Gosto da cachoeira, que pode ter vários significados no poema.
Soa bobo, o poeminha. O ritmo, a música, o tom, são meio arcaicos. E, no entanto - para mim ao menos -, há muitas imagens por trás, algumas referências e até histórias que podem ser minhas ou de qualquer um. Não espero que gostem nem que entendam. Os dois meses que levei para colocar as vírgulas nos lugares certos (eu acho), trocar umas palavras e encontrar o último verso não adiantaram grande coisa: continua soando pueril. De qualquer forma, compartilho, torcendo para que uma ou outra pessoa entenda e consiga ver mais do que um mero soneto. Quem quiser, pode deixar sua interpretação aqui. Impressões negativas serão recebidas com humildade. :-)
Itororó está disponível em http://eduardoviana.multiply.com/journal/item/22/22.
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