No último dia 10 de maio, a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei (PL) que obriga a inserção de etiquetas nas roupas íntimas para adultos – sutiãs, calcinhas e cuecas – alertando para a importância do exame preventivo de câncer de mama, de colo de útero e de próstata, respectivamente.
A proposta foi apresentada pelo ex-deputado Barbosa Neto (PMDB-GO) em 1999. Seis anos depois, foi encaminhada ao Senado Federal, que, após quase três anos de deliberação, devolveu à Câmara com alterações. Até aqui, foram 12 anos, dois meses e oito dias de tramitação. Eu me divirto quando vejo a peregrinação de uma lei no Congresso Nacional. Quem tiver curiosidade de verificar o percurso desta aqui, pode acessar http://www.camara.gov.br/internet/sileg/Prop_Detalhe.asp?id=15227. É preciso ir ao site do Senado para ver o que ocorreu no período em que o PL esteve por lá. Minha paciência não vai tão longe assim.
Mas não escrevi este post para falar sobre a morosidade do Congresso Nacional. O objetivo era comentar a irrelevância de algumas leis. Não há nada mais importante para os nossos legisladores fazerem do que discutir bobagens como esta? Em 12 anos (e sabe-se lá quanto tempo isso ainda levará), é bem possível que se conseguisse convencer os fabricantes de roupas íntimas a abraçarem tão nobre causa, sem que fosse necessária a coerção da lei.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
terça-feira, 3 de maio de 2011
Osama, Obama e o discurso do triunfo
ou "Everybody is filhos de God"
Não estou triste com a morte de Osama Bin Laden. Mas também não compartilho do discurso hip-hip-hurra que muita gente tem adotado. Matar alguém não é lá algo digno de comemoração. O que deveria nos fazer civilizados, em oposição a bárbaros terroristas e assassinos em geral, é justamente não compartilhar de seus métodos. Pode o homem sentir-se, quiçá, aliviado com o fim de seu algoz. Mas feliz por ter matado uma pessoa?
O discurso que Barack Obama fez na noite de domingo (horário de Washington) termina em um tom entre o triunfalista e o messiânico. Primeiro ele disse que os Estados Unidos podem fazer o que lhes der na telha – "we are once again reminded that America can do whatever we set our mind to". Em seguida, falou nos sacrifícios feitos pelo povo estadunidense para que o mundo seja um lugar mais seguro – "That is the story of our history, (...) our sacrifices to make the world a safer place."
É justamente este tom arrogante que faz com que muitos se voltem contra a nação mais poderosa do mundo. Condição, aliás, que o presidente Obama fez questão de lembrar – disfarçadamente, mas de modo não muito sutil: "Let us remember that we can do these things not just because of wealth or power, but because of who we are: one nation, under God, indivisible, with liberty and justice for all."
Para encerrar, a típica inspiração puritana que fecha muitos discursos de presidentes ianques – "May God bless you. And may God bless the United States of America." – poderia ser facilmente substituída, do outro lado do mundo, por "May Allah bless the Islam". Ao fim e ao cabo, estão todos querendo provar que são melhores que os outros. Ou mais predestinados.
Sim, a campanha para a reeleição já começou.
Não estou triste com a morte de Osama Bin Laden. Mas também não compartilho do discurso hip-hip-hurra que muita gente tem adotado. Matar alguém não é lá algo digno de comemoração. O que deveria nos fazer civilizados, em oposição a bárbaros terroristas e assassinos em geral, é justamente não compartilhar de seus métodos. Pode o homem sentir-se, quiçá, aliviado com o fim de seu algoz. Mas feliz por ter matado uma pessoa?
***
O discurso que Barack Obama fez na noite de domingo (horário de Washington) termina em um tom entre o triunfalista e o messiânico. Primeiro ele disse que os Estados Unidos podem fazer o que lhes der na telha – "we are once again reminded that America can do whatever we set our mind to". Em seguida, falou nos sacrifícios feitos pelo povo estadunidense para que o mundo seja um lugar mais seguro – "That is the story of our history, (...) our sacrifices to make the world a safer place."
É justamente este tom arrogante que faz com que muitos se voltem contra a nação mais poderosa do mundo. Condição, aliás, que o presidente Obama fez questão de lembrar – disfarçadamente, mas de modo não muito sutil: "Let us remember that we can do these things not just because of wealth or power, but because of who we are: one nation, under God, indivisible, with liberty and justice for all."
Para encerrar, a típica inspiração puritana que fecha muitos discursos de presidentes ianques – "May God bless you. And may God bless the United States of America." – poderia ser facilmente substituída, do outro lado do mundo, por "May Allah bless the Islam". Ao fim e ao cabo, estão todos querendo provar que são melhores que os outros. Ou mais predestinados.
***
Sim, a campanha para a reeleição já começou.
***
"O mundo caquinho de vidro
Tá cego do olho, tá surdo do ouvido
O mundo tá muito doente
O homem que mata, o homem que mente"
(O Mundo - André Abujamra / Karnak)
Tá cego do olho, tá surdo do ouvido
O mundo tá muito doente
O homem que mata, o homem que mente"
(O Mundo - André Abujamra / Karnak)
quinta-feira, 21 de abril de 2011
O cego na faixa de pedestres
No Rio de Janeiro, os motoristas têm o estranho hábito de parar seus veículos após o sinal, fechando o cruzamento. Ninguém pode esperar atrás da faixa de pedestres pela liberação do tráfego à frente. Assim, quando o farol fica verde na transversal, os carros do outro lado não podem se mover. Na prática, todo o mundo anda quando o semáforo da sua via está vermelho, pois, enquanto ele estava verde, o cruzamento estava bloqueado pelos automóveis que vinham na perpendicular.
Nunca consegui entender essa atitude mesquinha dos condutores cariocas. Além de atrapalhar o trânsito, prejudica os caminhantes, que ficam sem faixa de pedestres para atravessar. Ontem, uma dessas cenas de caos urbano me deixou aterrorizado e me fez perceber como esta prática contraventória pode ser perigosa. Um cego tentava cruzar a Avenida Heitor Beltrão, na Tijuca (para quem não conhece, uma via com três ou quatro faixas de rolamento, dependendo do trecho). No meio da pista, deparou-se com um ônibus atravessado sobre a faixa. Parou, pensou e resolveu dar a volta pela frente do coletivo, escolhendo o mais longo e mais perigoso percurso. Certamente imaginou que a condução estava só um pouco avançada, já que o sinal estava fechado para os veículos. No entanto, o ônibus, além de ocupar a faixa, bloqueava parte do cruzamento adiante.
Os riscos eram grandes: 1) o lotação poderia se mover sem que o condutor percebesse o lusco homem tateando a viatura; 2) conseguindo passar o coletivo, o cego poderia ser atropelado por um utilitário em movimento na faixa da direita (como vimos acima, independente de o semáforo estar aberto ou fechado); e 3) como o deficiente visual passaria por fora da faixa, à frente do ônibus, pelo cruzamento, poderia ser atropelado pelos carros que viessem pela transversal.
Felizmente, um rapaz veio correndo em seu socorro e o ajudou a atravessar as duas ruas por entre os veículos que, dos dois lados, aboletavam-se sobre as listras brancas que deveriam ser o território e a segurança dos transeuntes.
Nunca consegui entender essa atitude mesquinha dos condutores cariocas. Além de atrapalhar o trânsito, prejudica os caminhantes, que ficam sem faixa de pedestres para atravessar. Ontem, uma dessas cenas de caos urbano me deixou aterrorizado e me fez perceber como esta prática contraventória pode ser perigosa. Um cego tentava cruzar a Avenida Heitor Beltrão, na Tijuca (para quem não conhece, uma via com três ou quatro faixas de rolamento, dependendo do trecho). No meio da pista, deparou-se com um ônibus atravessado sobre a faixa. Parou, pensou e resolveu dar a volta pela frente do coletivo, escolhendo o mais longo e mais perigoso percurso. Certamente imaginou que a condução estava só um pouco avançada, já que o sinal estava fechado para os veículos. No entanto, o ônibus, além de ocupar a faixa, bloqueava parte do cruzamento adiante.
Os riscos eram grandes: 1) o lotação poderia se mover sem que o condutor percebesse o lusco homem tateando a viatura; 2) conseguindo passar o coletivo, o cego poderia ser atropelado por um utilitário em movimento na faixa da direita (como vimos acima, independente de o semáforo estar aberto ou fechado); e 3) como o deficiente visual passaria por fora da faixa, à frente do ônibus, pelo cruzamento, poderia ser atropelado pelos carros que viessem pela transversal.
Felizmente, um rapaz veio correndo em seu socorro e o ajudou a atravessar as duas ruas por entre os veículos que, dos dois lados, aboletavam-se sobre as listras brancas que deveriam ser o território e a segurança dos transeuntes.
domingo, 13 de março de 2011
Tempestade
Quando o mar bater mais forte
e nos jogar pra fora do barco,
talvez não haja mais mar
e talvez não haja mais barco.
[23.07.1991]
e nos jogar pra fora do barco,
talvez não haja mais mar
e talvez não haja mais barco.
[23.07.1991]
Je ne suis plus le même, je suis un autre
domingo, 6 de março de 2011
Achei bela morena
Tenho escrito muito pouco. Não à toa, fico catando poemas do passado para publicar na minha página no Multiply. Nas duas ou três vezes por ano em que me ocorre uma nova poesia, tenho que reaprender a escrever. Deve ser por isso que em dezembro me saiu este soneto que chamei "Itororó". O formato de dois quartetos e dois tercetos, todo rimadinho, era coisa que eu fazia há mais de vinte anos. Mas, enfim, já que perdi a prática...
O título faz referência à cantiga de roda ("Fui no itororó, beber água não achei / achei bela morena..."). Aliás, um título controverso, já que há quem cante "tororó", sem o i. Na dúvida, fiquei com itororó mesmo, que significa "pequena cachoeira". Gosto da cachoeira, que pode ter vários significados no poema.
Soa bobo, o poeminha. O ritmo, a música, o tom, são meio arcaicos. E, no entanto - para mim ao menos -, há muitas imagens por trás, algumas referências e até histórias que podem ser minhas ou de qualquer um. Não espero que gostem nem que entendam. Os dois meses que levei para colocar as vírgulas nos lugares certos (eu acho), trocar umas palavras e encontrar o último verso não adiantaram grande coisa: continua soando pueril. De qualquer forma, compartilho, torcendo para que uma ou outra pessoa entenda e consiga ver mais do que um mero soneto. Quem quiser, pode deixar sua interpretação aqui. Impressões negativas serão recebidas com humildade. :-)
Itororó está disponível em http://eduardoviana.multiply.com/journal/item/22/22.
O título faz referência à cantiga de roda ("Fui no itororó, beber água não achei / achei bela morena..."). Aliás, um título controverso, já que há quem cante "tororó", sem o i. Na dúvida, fiquei com itororó mesmo, que significa "pequena cachoeira". Gosto da cachoeira, que pode ter vários significados no poema.
Soa bobo, o poeminha. O ritmo, a música, o tom, são meio arcaicos. E, no entanto - para mim ao menos -, há muitas imagens por trás, algumas referências e até histórias que podem ser minhas ou de qualquer um. Não espero que gostem nem que entendam. Os dois meses que levei para colocar as vírgulas nos lugares certos (eu acho), trocar umas palavras e encontrar o último verso não adiantaram grande coisa: continua soando pueril. De qualquer forma, compartilho, torcendo para que uma ou outra pessoa entenda e consiga ver mais do que um mero soneto. Quem quiser, pode deixar sua interpretação aqui. Impressões negativas serão recebidas com humildade. :-)
Itororó está disponível em http://eduardoviana.multiply.com/journal/item/22/22.
sábado, 29 de janeiro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
A Elegância do Ouriço e Desenrola
Publiquei no Multiply duas resenhas sobre obras de arte completamente diferentes. Um romance francês e um filme brasileiro. Para quem se interessar, seguem os links:
Sobre A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery: http://eduardoviana.multiply.com/reviews/item/28
Sobre Desenrola, de Rosane Svartman: http://eduardoviana.multiply.com/reviews/item/29
Sobre A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery: http://eduardoviana.multiply.com/reviews/item/28
Sobre Desenrola, de Rosane Svartman: http://eduardoviana.multiply.com/reviews/item/29
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Rotina
A vida é uma eterna rotina de labores diários. Nem se fôssemos reis seria diferente. Apenas os labores seriam outros.
domingo, 19 de dezembro de 2010
Belém, Pará
Há duas maneiras de ver Belém. Primeiro, a otimista. É uma cidade pitoresca, de ruelas estreitas e casario antigo que lembram a rica história de entreposto exportador das "drogas do sertão", no século XVII, e da borracha, no final do século XIX e início do XX. Cortada por rios e igarapés, Belém recende a peixe. Na beira dos rios e nos igarapés, vêem-se curiosas casinhas de madeira, construídas sobre palafitas. Ali o caboclo leva sua vida em perfeita comunhão com a natureza.Dizem que os colonizadores portugueses só se preocuparam com o Pará depois que a França tomou conta do Maranhão. Com medo de perder suas terras para os franceses, Portugal varreu-os do Maranhão e começou a povoar, em seguida, o Norte do país.
Belém foi fundada em 1616. Ao descobrirem as "especiarias" da região amazônica, os colonizadores interessaram-se mais por este pedaço de terra. Para eles, era mais barato colher os temperos nativos da floresta brasileira do que comprar pimenta, cravo e canela na Índia. O interesse era tanto, que o Marquês de Pombal mandou para governar a região um homem de sua inteira confiança: seu próprio irmão.
O período áureo veio quase três centenas de anos depois. Na virada do século XIX para o XX, o látex extraído da seringueira, árvore nativa da Floresta Amazônica, rendeu muito dinheiro para o Brasil. O "ciclo da borracha" expandiu as fronteiras do território nacional, como todos viram na minissérie da TV Globo. Ocorre que essa borracha, produzida nos estados amazônicos, só tinham um meio de sair da região: descendo o Rio Amazonas até o mar. Ocorre também que na foz do rio, no caminho do mar, está Belém. Em 1907, o governo federal abriu licitação para que fosse construído um porto descente na cidade. Nos anos seguintes, o norte-americano Percival Faquar trabalhou arduamente na construção do porto, situado na baía do rio Guajará. Só que as coisas começaram a complicar. A crise foi deflagrada quando os ingleses começaram a produzir borracha a partir das seringueiras que levaram para a Malásia. Faquar foi à falência e o governo brasileiro, seu maior credor, assumiu o porto. A Segunda Grande Guerra deu novo gás à exportação da borracha, mas foi uma recuperação passadiça. Tão logo acabou a guerra, terminaram os grandes pedidos de compra de borracha e a região amazônica voltou mais uma vez ao ostracismo, do qual só sairia mais de 50 anos depois, com a nova onda ecológica e a biotecnologia.
Mas Belém ainda não se recuperou. A outra maneira de ver a cidade é a pessimista. Cortada por mananciais d'água de diversas proporções, a capital paraense cheira a esgoto. Um monte de casa velha e malcuidada desafia a lei da gravidade enquanto é tomada por plantas imensas. Nascem árvores nas paredes. Ruas e calçadas estreitas oferecem pouco espaço para a circulação de carros e pedestres. A população ribeirinha vive muito mal em suas casas de madeira precariamente construídas sobre a água: falta luz, falta esgoto, falta escola, mas a cerveja chega de barco e em carroça puxada pelo homem. E, no fim das contas, para quem não é grande fã de botânica, uma caminhada na Floresta Amazônica não parecerá tão diferente de uma caminhada na Mata Atlântica. Mato é tudo muito parecido.(Escrito em maio de 2007)
***
Mais fotos de Belém em http://eduardoviana.multiply.com/photos/album/4/4
Assinar:
Postagens (Atom)
