terça-feira, 31 de julho de 2012
A vaidade da diferença
Sou contra o orgulho wasp, o orgulho gay, o orgulho negro, o orgulho judeu e qualquer outra forma de altanaria que se preocupe em ressaltar as diferenças. Mas sou totalmente a favor da falta de vergonha. Falta de vergonha de ser negro, branco, mulato, cafuzo, mameluco, amarelo, albino ou detentor de qualquer configuração genética que defina a pigmentação da pele ou a ausência dela. Falta de vergonha de ser homem, mulher, gay ou optante de qualquer preferência sexual e afetiva. Falta de vergonha de ser judeu, cristão, muçulmano, budista ou possuidor de qualquer tipo de crença ou não-crença religiosa. Sou a favor de que nos vejamos como humanos simplesmente; indivíduos de uma mesma espécie, a qual ganha muito mais ao irmanar-se em suas semelhanças do que ao brigar por suas dissimilidades.
domingo, 27 de maio de 2012
Pós-pago, pré-ferrado
Todos sabem da minha resistência a telefones celulares, estes aparelhinhos que fazem com que qualquer um te encontre em qualquer lugar, soam em salas de cinema e em reuniões de trabalho, e te obrigam a participar das conversas mais íntimas do estranho que está ao teu lado no ônibus. Pois bem, minha mulher tinha um telefone celular pré-pago simplezinho. Daquele que não tira fotos, não grava música, não toca rádio. Só serve para telefonar mesmo. Um dia resolveu trocar para um aparelho melhorzinho. Aproveitou para mudar o plano também. Trocou o pré-pago que lhe custava uns R$ 20,00 por mês por um pós-pago. A primeira conta veio em R$ 800,00. Erro da operadora, é claro. Mandaram uma segunda conta. Ainda errada. Apelamos para a Anatel e a empresa de telecom saiu pela tangente dizendo que "por ela ser uma boa cliente, concederiam um desconto na fatura daquele mês". Pois é, caradura não tem limites...
Eu, que estava livre dessas maquininhas do diabo, longe das microondas na minha orelha, herdei o celular simplezinho da minha mulher. Do final do ano passado para cá, creio só tê-lo usado umas três vezes. Sempre me assustando que um telefonema de 20 segundos custe quase R$ 2,00. Enfim, continuei creditando (e não usando) uns R$ 10,00 por mês só para que, vez ou outra, minha mulher pudesse me achar no caminho do trabalho para casa ou para o cinema. Cheguei a ficar quase dois meses sem colocar crédito, quando saímos de férias.
Outro dia fui com minha companheira numa dessas lojas de telefone celular. Queríamos saber quanto custaria para incluir o meu celular no plano dela. Dizem que esses pacotes são mais vantajosos, não é mesmo? Coisa nenhuma. O preço mais barato que me ofereceram foi de R$ 60,00.
Essa história de pós-pago é muito esquisita para mim. A gente paga depois que fecha o mês, mas não necessariamente pelo que consome. O plano me oferecia sei lá quantas centenas de minutos (a franquia de R$ 60,00), mas eu não usaria nem um décimo disso. Já acho uma roubada os R$ 10,00 que eu pago no pré-pago só para manter a linha ativa, que dirá R$ 60,00! Continuei no pré-pago, mas ainda assim pensando que vantagem afinal existe em carregar esse aparelhinho do demônio para cima e para baixo, com medo que ele caia do bolso ou seja esquecido em algum lugar.
Eu, que estava livre dessas maquininhas do diabo, longe das microondas na minha orelha, herdei o celular simplezinho da minha mulher. Do final do ano passado para cá, creio só tê-lo usado umas três vezes. Sempre me assustando que um telefonema de 20 segundos custe quase R$ 2,00. Enfim, continuei creditando (e não usando) uns R$ 10,00 por mês só para que, vez ou outra, minha mulher pudesse me achar no caminho do trabalho para casa ou para o cinema. Cheguei a ficar quase dois meses sem colocar crédito, quando saímos de férias.
Outro dia fui com minha companheira numa dessas lojas de telefone celular. Queríamos saber quanto custaria para incluir o meu celular no plano dela. Dizem que esses pacotes são mais vantajosos, não é mesmo? Coisa nenhuma. O preço mais barato que me ofereceram foi de R$ 60,00.
Essa história de pós-pago é muito esquisita para mim. A gente paga depois que fecha o mês, mas não necessariamente pelo que consome. O plano me oferecia sei lá quantas centenas de minutos (a franquia de R$ 60,00), mas eu não usaria nem um décimo disso. Já acho uma roubada os R$ 10,00 que eu pago no pré-pago só para manter a linha ativa, que dirá R$ 60,00! Continuei no pré-pago, mas ainda assim pensando que vantagem afinal existe em carregar esse aparelhinho do demônio para cima e para baixo, com medo que ele caia do bolso ou seja esquecido em algum lugar.
sábado, 28 de abril de 2012
De repente
De repente era tudo muito simples,
como, aliás, sempre foi
e nós não queríamos ver.
De repente do papel saiu a rima
e da grama saltou o canto,
o profano tornou-se santo,
e éramos só nós dois
e éramos tantos.
De repente da vida fez-se o encanto
e o riso leve calou o pranto
e a sua última lágrima tornou-se vento.
De repente do seu beijo fez-se o momento,
do seu abraço fez-se o alento
e o seu olhar foi meu recanto.
De repente da areia fina fez-se o segundo,
do seu corpo fez-se o meu mundo
e da palavra fez sentimento.
De repente o verso foi mais profundo,
da rocha fez-se acalanto
e da dor fez-se o rebento.
De repente fez-se o encontro,
e éramos todas as frases,
e éramos um só ponto.
[13.07.1994]
como, aliás, sempre foi
e nós não queríamos ver.
De repente do papel saiu a rima
e da grama saltou o canto,
o profano tornou-se santo,
e éramos só nós dois
e éramos tantos.
De repente da vida fez-se o encanto
e o riso leve calou o pranto
e a sua última lágrima tornou-se vento.
De repente do seu beijo fez-se o momento,
do seu abraço fez-se o alento
e o seu olhar foi meu recanto.
De repente da areia fina fez-se o segundo,
do seu corpo fez-se o meu mundo
e da palavra fez sentimento.
De repente o verso foi mais profundo,
da rocha fez-se acalanto
e da dor fez-se o rebento.
De repente fez-se o encontro,
e éramos todas as frases,
e éramos um só ponto.
[13.07.1994]
sábado, 24 de março de 2012
entre trópicos 46º05'
Termina amanhã, na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, a exposição entre trópicos 46º05'. Com curadoria da cubana Ibis Hernández Abascal e da brasileira Marisa Flórido Cesar, a mostra propõe um diálogo entre artistas plásticos contemporâneos de Brasil e Cuba. Esta relação se dá por ideias e/ou por instrumentos/ferramentas (as caixas de música de Glenda León e Cadu; os jogos de luz e sombra de Regina Silveira e Duvier del Lago; etc.).
Às vezes os diálogos são sutis, outras vezes são um convite a um bate-papo direto e franco. É o que conseguem o pernambucano Paulo Bruscky e o havanês Lázaro Saavedra, com seus irônicos e críticos bric-à-bracs (como chamou Bruscky): composições em vários suportes, tais como vídeos, poemas, desenhos e fotografias.
As obras em exposição trazem um olhar crítico sobre o mundo, sem serem panfletárias. São belas peças, que revelam inteligência e incomodismo. Eu, que não entendo nada de arte, gostei e recomendo.
A Caixa Cultural fica na Av. Almirante Barroso, 25, Centro.
Às vezes os diálogos são sutis, outras vezes são um convite a um bate-papo direto e franco. É o que conseguem o pernambucano Paulo Bruscky e o havanês Lázaro Saavedra, com seus irônicos e críticos bric-à-bracs (como chamou Bruscky): composições em vários suportes, tais como vídeos, poemas, desenhos e fotografias.
As obras em exposição trazem um olhar crítico sobre o mundo, sem serem panfletárias. São belas peças, que revelam inteligência e incomodismo. Eu, que não entendo nada de arte, gostei e recomendo.
A Caixa Cultural fica na Av. Almirante Barroso, 25, Centro.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
"Senhorita Júlia" e as estranhas reações do público de teatro
Há poucas semanas fui assistir à peça "A propósito de Senhorita Júlia", adaptação de José Almino e Walter Lima Jr. para o clássico "Senhorita Júlia" de August Strindberg. Posso estar enganado, mas, no meu entender, trata-se de um drama. Creio que, ao transpor a história da Suécia do século XIX para o Brasil do século XXI, não se tentou fazer uma paródia da obra. Não acho que houve intenção satírica. Mas devo estar enganado, pois o público se escangalhava de rir. E aplaudiu de pé! A questão é: a plateia aplaudiu exatamente o quê? Na minha imodesta opinião, não exatamente o drama que a peça é, mas a comédia que ela pensou ter visto.
A história se passa na cozinha de uma casa de classe alta. A filha riquinha do dono da casa flerta com o motorista do pai, um sujeito mais ou menos articulado, mais ou menos ambicioso, e mais ou menos ressentido. O rapaz, que é noivo da cozinheira, deixa-se envolver. É um enredo de conflitos sexuais e de classes. Como era o original de Strindberg.
Ao transporem a intriga, Almino e Lima Jr. transformaram o dramaturgo sueco em uma espécie de Nelson Rodrigues. Parece-me que a pretendida transposição para o século XXI não foi de toda feliz, mas, se tirarmos algumas poucas referências aos dias atuais, poderíamos encaixá-la muito bem nos anos 1950. Concedo até que, assim como no trabalho de Nelson Rodrigues, a montagem tem sim um toque de humor. Mas, em geral, não de um humor satírico ou burlesco, e sim irônico. Diálogos irônicos, contudo, não costumam levar as pessoas às gargalhadas.
Supondo que o público achasse a montagem muito ruim, eu entenderia que ele risse, mas não que aplaudisse de pé. Supondo que achasse muito boa, eu entenderia que aplaudisse de pé, mas não que risse. As duas coisas juntas, para mim, não fazem sentido. Desta forma, só há duas conclusões possíveis: ou o púbico não compreendeu nada ou fui eu.
Independente da plateia ter entendido ou não, aplaudir - e de pé - é a coisa mais comum nos teatros cariocas. O que nos leva a imaginar que a nossa produção cultural é de primeiríssima qualidade; tão boa que fica difícil selecionar uma peça para ser ovacionada de pé, por isso aplaudimos todas. Isto ou o público tem medo de entristecer o elenco. Vai que esbarramos com um dos atores na praia, não é mesmo?
E tem mais: nem importa quem é o melhor ator ou atriz em cena, o negócio é aplaudir a "estrela global". Na boa: há ótimos artistas em cena que garantem o ganha-pão na TV Globo. Eles podem até ser os melhores em determinados espetáculos. Merecem nosso aplauso e nosso respeito. Mas não são os melhores sempre. Não mesmo. Se tiverem um pouco de autocrítica, devem até ficar constrangidos ao receberem mais apupos do que outros colegas com quem dividem o palco.
Enfim, acredito que temos uma produção cultural de muito bom nível. Mas lamento que fique difícil destacar o que é realmente bom do que é somente bom, bonzinho, ou mesmo razoável, se as pessoas tratam tudo como a sétima maravilha.
E não falei da peça: o enredo é bom, os atores são ótimos e a trilha sonora é muito - mas muito - fraquinha. Aplaudi sentado.
P.s.: Qualquer dia faço uma lista das peças de que mais gostei nos últimos 20 ou 30 anos. Das que mereceram ser aplaudidas de pé.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
II Guerra e a origem do mal
"Nada autoriza a ideia tão disseminada de que o passado humano foi bucólico, pastoril e pacífico. Há poucos séculos, matavam-se pessoas com base em superstições avalizadas pela hierarquia religiosa, a escravidão era oficial e apenas discordar da opinião vigente podia equivaler a uma sentença de morte."
[Steven Pinker, professor de psicologia de Harvard, em entrevista à revista Veja de 4 de janeiro de 2012]
[Steven Pinker, professor de psicologia de Harvard, em entrevista à revista Veja de 4 de janeiro de 2012]
Em setembro de 2010, escrevi uma resenha sobre o filme "A Fita Branca", de Michael Haneke, deixando de lado o argumento de alguns críticos sobre a formação do caráter da geração que criaria o nazismo alemão. Segundo tais críticos, Haneke desejava buscar em sua obra a origem do ódio que provocou o Holocausto.
Após ler a biografia da amante de Hitler – "A História Perdida de Eva Braun" –, comecei a considerar que tais críticos tinham razão. O Führer nasceu em uma família completamente desestruturada. Seu pai o espancava frequentemente e era de uma infidelidade doentia. Uma foto de Eva Braun no internato é assustadora: quase todas as crianças aparecem sujas, tristes e mal-vestidas. Segundo a autora, Angela Lambert, havia muita opressão à época. Essas crianças maltratadas poderiam mesmo vir a se tornar adultos cruéis como Himmler, Goebbels e outros figurões nazistas.
Crianças reprimidas do século XIX, que sofreram as humilhações impostas pelo Tratado de Versalhes quando jovens, e enfrentaram uma dura crise econômica quando adultas, tornaram-se, em parte, defensoras de um nacionalismo e de um racismo exacerbados.
Steven Pinker diz, em sua entrevista à Veja, que "no caso da Alemanha, é preciso observar que, por baixo da fina camada de verniz civilizatório da República de Weimar, o curto período democrático depois da I Guerra, fervia o nacionalismo retrógrado baseado na ideia da superioridade racial teutônica que descambaria no nazismo. Foi algo tão forte que apagou a noção do bem e do mal." Talvez a dificuldade de diferenciar o bem do mal tivesse origens ainda mais profundas, como aquelas mostradas no filme "A Fita Branca".
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Melancolia e a crítica da crítica
Um amigo discordou da minha opinião sobre o filme "Melancolia" (ver comentário em Filmes de 2011). Achei que valia a pena trazer esta discussão para uma nova entrada no blog. Se você, caro leitor, concorda, discorda ou muito pelo contrário, meta também seu dedo neste umbigo. Refletindo, conhecemos melhor o mundo e a nós mesmos.
Meu caro Pedro,
Adorei o seu comentário. É bom ouvir outras opiniões para reavaliar as nossas (seja para alterá-las ou não). No caso de “Melancolia”, você não me convenceu: continuo achando um filme menor do Lars von Trier. Concordo que a nudez platinada da Kirsten Dunst seja plasticamente bela. Embora não tenha entendido muita coisa, esta parte – a conexão da personagem Justine com o planeta Melancolia – eu entendi. Vou reformular minha afirmação: a cena é sem importância para a compreensão desta relação intensa entre Justine e o planeta Melancolia. E, justamente porque a cena não é necessária para esta compreensão, acho que há um quê de exercício de poder do diretor. Eu não disse que isso é ruim. Mas quis dizer (com uma dose de sarcasmo) que diretores “cults” conseguem colocar estrelas de cinema em situações vulneráveis graças ao poder natural que exercem. Expor sua nudez para milhões de espectadores é, na minha opinião, colocar-se em situação de vulnerabilidade. Ao menos pelos códigos vigentes (não somos silvícolas).
Gostaria de discutir a impressão que tenho de que von Trier trata as mulheres sempre como forças da natureza. Em todos os filmes a que assisti dele, a mulher está no centro da história, movida a emoções, enquanto os homens exibem um verniz mais racional. Peguemos como exemplos os personagens de Dunst e de Kiefer Sutherland em “Melancolia”, e de Charlotte Gainsbourg e de Willem Dafoe em “Anticristo”. A natureza (que podemos interpretar como destino em algumas situações) é incontrolável, é “a igreja do diabo”, e só as mulheres entendem isso. Os homens tentam controlar a natureza e as ações humanas, procuram justificativas para seus atos (David Morse em “Dançando no Escuro” e Paul Bettany em “Dogville”), e explicações científicas ou terapêuticas para as coisas (Willem Dafoe em “Anticristo” e Kiefer Sutherland em “Melancolia”). As mulheres compreendem a natureza, “filiam-se” a ela, mas não compreendem os homens (entendidos como toda a humanidade em filmes como Dogville e Manderlay).
Esta representação de força da natureza não está presente em todos os personagens femininos, é claro. Há aqueles que cumprem a mesma função dos homens nos filmes, ou seja, representam os vícios da humanidade. Mas as estrelas dos filmes de von Trier não são mulheres comuns, são alegorias. Justine (Dunst) não foge à regra: ela pressente o fim do mundo e, simbolicamente, se entrega ao destino na cena em que se deita nua à luz azulada de Melancolia. Enquanto isso, seu cunhado (Sutherland) tenta explicar cientificamente o inexplicável e, mesmo diante da iminente tragédia, se preocupa com as aparências e o dinheiro.
Feita esta digressão, retorno para um ponto impalpável: o da sensação provocada pela arte. Há obras que nos cativam e obras não nos emocionam. Nem sempre este efeito está relacionado à qualidade do trabalho do artista. O momento do espectador (leitor etc.) é fundamental. Neste “momento do espectador” entra também tudo o que ele consumiu anteriormente, inclusive – e principalmente, talvez – outras obras do mesmo autor. Como se pode depreender dos meus dois parágrafos anteriores, meu entendimento de “Melancolia” tem tudo a ver com o que eu entendo do que Lars von Trier vem tentando dizer em seus trabalhos. Justamente no cinema autoral é que acho mais difícil escapar a este percurso. Fosse apenas um diretor a soldo e não o escritor de seus roteiros, a comparação se daria em outro nível (no da linguagem fílmica, por exemplo).
É, de certa forma, injusto comparar “Caim” com “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” ou “As Intermitências da Morte” com “Ensaio sobre a Cegueira” (como eu já fiz - ver http://eduardoviana.multiply.com/reviews/item/14), mas acho inescapável. Nossa compreensão do mundo é formada a partir das influências que recebemos. Assim, nossa interpretação das obras de arte também será influenciada pelas obras que consumimos anteriormente.
Um forte abraço,
Eduardo
P.s.: O uso do verbo "consumir" não quer dar à Arte um valor utilitário, de objeto de consumo. A melhor palavra a ser usada talvez fosse "fruir", mas acho um vocábulo muito feio. Usei "consumir" como síntese de "assistir", "ler", "ouvir", "ver" e o que mais servir para a interação de uma dada pessoa com uma dada obra de arte.
***
Meu caro Pedro,
Adorei o seu comentário. É bom ouvir outras opiniões para reavaliar as nossas (seja para alterá-las ou não). No caso de “Melancolia”, você não me convenceu: continuo achando um filme menor do Lars von Trier. Concordo que a nudez platinada da Kirsten Dunst seja plasticamente bela. Embora não tenha entendido muita coisa, esta parte – a conexão da personagem Justine com o planeta Melancolia – eu entendi. Vou reformular minha afirmação: a cena é sem importância para a compreensão desta relação intensa entre Justine e o planeta Melancolia. E, justamente porque a cena não é necessária para esta compreensão, acho que há um quê de exercício de poder do diretor. Eu não disse que isso é ruim. Mas quis dizer (com uma dose de sarcasmo) que diretores “cults” conseguem colocar estrelas de cinema em situações vulneráveis graças ao poder natural que exercem. Expor sua nudez para milhões de espectadores é, na minha opinião, colocar-se em situação de vulnerabilidade. Ao menos pelos códigos vigentes (não somos silvícolas).
Gostaria de discutir a impressão que tenho de que von Trier trata as mulheres sempre como forças da natureza. Em todos os filmes a que assisti dele, a mulher está no centro da história, movida a emoções, enquanto os homens exibem um verniz mais racional. Peguemos como exemplos os personagens de Dunst e de Kiefer Sutherland em “Melancolia”, e de Charlotte Gainsbourg e de Willem Dafoe em “Anticristo”. A natureza (que podemos interpretar como destino em algumas situações) é incontrolável, é “a igreja do diabo”, e só as mulheres entendem isso. Os homens tentam controlar a natureza e as ações humanas, procuram justificativas para seus atos (David Morse em “Dançando no Escuro” e Paul Bettany em “Dogville”), e explicações científicas ou terapêuticas para as coisas (Willem Dafoe em “Anticristo” e Kiefer Sutherland em “Melancolia”). As mulheres compreendem a natureza, “filiam-se” a ela, mas não compreendem os homens (entendidos como toda a humanidade em filmes como Dogville e Manderlay).
Esta representação de força da natureza não está presente em todos os personagens femininos, é claro. Há aqueles que cumprem a mesma função dos homens nos filmes, ou seja, representam os vícios da humanidade. Mas as estrelas dos filmes de von Trier não são mulheres comuns, são alegorias. Justine (Dunst) não foge à regra: ela pressente o fim do mundo e, simbolicamente, se entrega ao destino na cena em que se deita nua à luz azulada de Melancolia. Enquanto isso, seu cunhado (Sutherland) tenta explicar cientificamente o inexplicável e, mesmo diante da iminente tragédia, se preocupa com as aparências e o dinheiro.
Feita esta digressão, retorno para um ponto impalpável: o da sensação provocada pela arte. Há obras que nos cativam e obras não nos emocionam. Nem sempre este efeito está relacionado à qualidade do trabalho do artista. O momento do espectador (leitor etc.) é fundamental. Neste “momento do espectador” entra também tudo o que ele consumiu anteriormente, inclusive – e principalmente, talvez – outras obras do mesmo autor. Como se pode depreender dos meus dois parágrafos anteriores, meu entendimento de “Melancolia” tem tudo a ver com o que eu entendo do que Lars von Trier vem tentando dizer em seus trabalhos. Justamente no cinema autoral é que acho mais difícil escapar a este percurso. Fosse apenas um diretor a soldo e não o escritor de seus roteiros, a comparação se daria em outro nível (no da linguagem fílmica, por exemplo).
É, de certa forma, injusto comparar “Caim” com “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” ou “As Intermitências da Morte” com “Ensaio sobre a Cegueira” (como eu já fiz - ver http://eduardoviana.multiply.com/reviews/item/14), mas acho inescapável. Nossa compreensão do mundo é formada a partir das influências que recebemos. Assim, nossa interpretação das obras de arte também será influenciada pelas obras que consumimos anteriormente.
Um forte abraço,
Eduardo
***
P.s.: O uso do verbo "consumir" não quer dar à Arte um valor utilitário, de objeto de consumo. A melhor palavra a ser usada talvez fosse "fruir", mas acho um vocábulo muito feio. Usei "consumir" como síntese de "assistir", "ler", "ouvir", "ver" e o que mais servir para a interação de uma dada pessoa com uma dada obra de arte.
sábado, 24 de dezembro de 2011
Filmes de 2011
Um amigo pediu minha opinião sobre os filmes da lista de melhores do ano do jornal Valor Econômico. Dos campeões, só não assisti a Árvore da Vida. Sobre os outros, enviei-lhe os comentários que aqui reproduzo. Lembro apenas que opinião é coisa pessoal, cada um tem a sua. Questão de gosto, de momento e de conhecimento. Se não gostei de alguma coisa, pode ser que não estivesse preparado para entendê-la. Ou, ainda, que não estivesse "no clima do filme". Enfim, fiquem à vontade para discordar.
Melancolia - Talvez eu não tenha entendido o filme, mas não achei nenhuma maravilha. Sou um grande fã de Lars von Trier, mas achei esta obra apenas melancólica (bem, talvez seja este o objetivo mesmo). Parece que o diretor, em toda a sua depressão, quis dizer que o mundo não vale a pena e pronto. Não há a ironia de "Os Idiotas", a contundência de "Dançando no Escuro" ou o apuro artístico e simbólico de "Anticristo". Acho que ele se perdeu um pouco. O mais significativo do filme foi ele ter convencido a Kirsten Dunst a ficar nua em uma cena sem importância. É aquela história do diretor cult colocando uma atriz famosa em situação vulnerável, o que é irônico como exercício do poder.
A Pele que Habito - É um bom filme, interessante, mas está longe de ser o melhor Almodovar. Não chega aos pés de "Fale com Ela", "Tudo Sobre a Minha Mãe", "Volver" ou "A Flor do Seu Segredo". Mas é melhor do que "Kika" e "Má Educação". Um Almodovar mediano, o que já é um bom motivo para assistir.
Meia-Noite em Paris - Um excelente filme de Woody Allen, com cara de Woody Allen (ao contrário de "Vicky Cristina Barcelona", que é muito bom, mas não parece Woody Allen). Gostei mais do que dos dois anteriores, que também são bons ("Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos" e "Tudo Pode dar Certo"). "Meia-Noite em Paris" é uma ótima lição para saudosistas. Adorei.
O Garoto da Bicicleta - Bom, mas eu esperava mais. Talvez seja o raio da expectativa, já que ouvi tanta gente elogiar antes de eu assistir. Acho que não é o tipo de filme que arrebata, mas é uma história bem interessante: uma mulher que passa a cuidar de um menino sem nenhum motivo. O garoto apronta e ela resiste, com uma paciência de Jó, compreendendo a revolta e a solidão do moleque. O garoto é um ótimo ator, muito bem dirigido. Mas o filme não chega a emocionar muito. O que talvez seja até uma qualidade, pois o risco de debandar para o melodrama é grande. Os diretores não apelaram para emoções baratas, o que é uma qualidade, sem dúvida.
O Palhaço - Gostei muito. Acho que o Selton Mello podia cortar algumas cenas ("Eu faço as pessoas rirem, mas quem é que vai me fazer rir?" é um pouco óbvio. Este tipo de melancolia está estampado na cara do personagem, não precisava colocá-lo em palavras, em uma cena sem grande função e que, repetida tantas vezes nos traillers, torna-se incômoda), mas é um filme capaz de levar às lágrimas. Singelo, honesto, sensível e nostálgico. Caetano Veloso diria que é um filme saído do "Brasil profundo". E é. Genuinamente brasileiro, repleto de emoções universais, como um "Cinema Paradiso" (universal, sendo italiano).
Melancolia - Talvez eu não tenha entendido o filme, mas não achei nenhuma maravilha. Sou um grande fã de Lars von Trier, mas achei esta obra apenas melancólica (bem, talvez seja este o objetivo mesmo). Parece que o diretor, em toda a sua depressão, quis dizer que o mundo não vale a pena e pronto. Não há a ironia de "Os Idiotas", a contundência de "Dançando no Escuro" ou o apuro artístico e simbólico de "Anticristo". Acho que ele se perdeu um pouco. O mais significativo do filme foi ele ter convencido a Kirsten Dunst a ficar nua em uma cena sem importância. É aquela história do diretor cult colocando uma atriz famosa em situação vulnerável, o que é irônico como exercício do poder.
A Pele que Habito - É um bom filme, interessante, mas está longe de ser o melhor Almodovar. Não chega aos pés de "Fale com Ela", "Tudo Sobre a Minha Mãe", "Volver" ou "A Flor do Seu Segredo". Mas é melhor do que "Kika" e "Má Educação". Um Almodovar mediano, o que já é um bom motivo para assistir.
Meia-Noite em Paris - Um excelente filme de Woody Allen, com cara de Woody Allen (ao contrário de "Vicky Cristina Barcelona", que é muito bom, mas não parece Woody Allen). Gostei mais do que dos dois anteriores, que também são bons ("Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos" e "Tudo Pode dar Certo"). "Meia-Noite em Paris" é uma ótima lição para saudosistas. Adorei.
O Garoto da Bicicleta - Bom, mas eu esperava mais. Talvez seja o raio da expectativa, já que ouvi tanta gente elogiar antes de eu assistir. Acho que não é o tipo de filme que arrebata, mas é uma história bem interessante: uma mulher que passa a cuidar de um menino sem nenhum motivo. O garoto apronta e ela resiste, com uma paciência de Jó, compreendendo a revolta e a solidão do moleque. O garoto é um ótimo ator, muito bem dirigido. Mas o filme não chega a emocionar muito. O que talvez seja até uma qualidade, pois o risco de debandar para o melodrama é grande. Os diretores não apelaram para emoções baratas, o que é uma qualidade, sem dúvida.
O Palhaço - Gostei muito. Acho que o Selton Mello podia cortar algumas cenas ("Eu faço as pessoas rirem, mas quem é que vai me fazer rir?" é um pouco óbvio. Este tipo de melancolia está estampado na cara do personagem, não precisava colocá-lo em palavras, em uma cena sem grande função e que, repetida tantas vezes nos traillers, torna-se incômoda), mas é um filme capaz de levar às lágrimas. Singelo, honesto, sensível e nostálgico. Caetano Veloso diria que é um filme saído do "Brasil profundo". E é. Genuinamente brasileiro, repleto de emoções universais, como um "Cinema Paradiso" (universal, sendo italiano).
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Irrelevâncias legislativas e promiscuidades judiciárias
A revista Veja desta semana (data de capa 28/09) comenta um assunto que já havíamos abordado aqui no post "A lei na calcinha". A reportagem de Veja aborda várias leis ou projetos de leis irrelevantes ou inúteis. Chega à mesma conclusão a que já havíamos chegado: nosso Poder Legislativo não produz reformas relevantes porque perde muito tempo com bobagens.
A reportagem usa, ainda, uma frase que costumo repetir: "no Brasil, parte-se do princípio de que todo o mundo é culpado". Esta é uma razão para termos tantas leis e tanta burocracia. E as coisas só pioram. No fim das contas, a vida do brasileiro honesto fica mais difícil e os corruptos continuam agindo do mesmo jeito. Era preciso que houvesse menos leis e que elas fossem interpretadas pelos juízes de forma mais ampla, a partir de critérios éticos. No Brasil, o sujeito pode ser sabidamente ladrão mas encontrar um brecha no cipoal legislativo para escapar das punições previstas.
A burocracia gerada por este exagero legislativo às vezes sai mais cara do que os desvios que ela se propõe a coibir. Uma multidão de funcionários públicos é necessária para carimbar papéis, conferir e acumular documentos. Já fiz parte da burocracia estatal mais de uma vez. Falo com conhecimento de causa.
Outra matéria da revista reforça a nossa sensação de impotência, de estar vivendo em um país muito estranho. Trata das relações de amizades entre juízes, advogados de defesa e réus. Um absurdo total. Em princípio, os juízes deveriam se declarar impedidos de julgar casos em que o réu é um amigo. Não parece ser o que acontece em nossa terra. Mesmo nas mais altas esferas, segundo revela a Veja.
A ladroagem que produz novas leis e processos burocráticos e as relações suspeitas na área jurídica são frutos de uma mesma lassidão moral, um clima de "nada a ver" (como diz J.R Guzzo em seu artigo na última página da mesma revista) que grassa neste país. É triste, é desesperador. E é pena que os defensores da ética do passado, hoje chamem os que ainda se revoltam de "golpistas de direita", quando, na verdade, há gente de todos os espectros incomodada com o atual estado das coisas. Tanto quanto estava antes. Porque a ética e a ladroagem não são exclusividade de nenhuma corrente política.
A reportagem usa, ainda, uma frase que costumo repetir: "no Brasil, parte-se do princípio de que todo o mundo é culpado". Esta é uma razão para termos tantas leis e tanta burocracia. E as coisas só pioram. No fim das contas, a vida do brasileiro honesto fica mais difícil e os corruptos continuam agindo do mesmo jeito. Era preciso que houvesse menos leis e que elas fossem interpretadas pelos juízes de forma mais ampla, a partir de critérios éticos. No Brasil, o sujeito pode ser sabidamente ladrão mas encontrar um brecha no cipoal legislativo para escapar das punições previstas.
A burocracia gerada por este exagero legislativo às vezes sai mais cara do que os desvios que ela se propõe a coibir. Uma multidão de funcionários públicos é necessária para carimbar papéis, conferir e acumular documentos. Já fiz parte da burocracia estatal mais de uma vez. Falo com conhecimento de causa.
Outra matéria da revista reforça a nossa sensação de impotência, de estar vivendo em um país muito estranho. Trata das relações de amizades entre juízes, advogados de defesa e réus. Um absurdo total. Em princípio, os juízes deveriam se declarar impedidos de julgar casos em que o réu é um amigo. Não parece ser o que acontece em nossa terra. Mesmo nas mais altas esferas, segundo revela a Veja.
A ladroagem que produz novas leis e processos burocráticos e as relações suspeitas na área jurídica são frutos de uma mesma lassidão moral, um clima de "nada a ver" (como diz J.R Guzzo em seu artigo na última página da mesma revista) que grassa neste país. É triste, é desesperador. E é pena que os defensores da ética do passado, hoje chamem os que ainda se revoltam de "golpistas de direita", quando, na verdade, há gente de todos os espectros incomodada com o atual estado das coisas. Tanto quanto estava antes. Porque a ética e a ladroagem não são exclusividade de nenhuma corrente política.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Acontece comigo também
Tentei secar os olhos de Maria
e não consegui.
Suas mãos frias, eu não pude reter.
Moveu-se para frente.
Balançou-se.
Gemeu.
Abracei-a por trás.
Aproximei sua cabeça do meu peito.
Soluçou.
Fechei meus olhos e continuei a segurar seu rosto.
Docemente.
Gentilmente.
Acalmou-se. Um pouco.
Não olhou para mim.
Olhava para dentro de si.
Para além.
Sonhara.
Eu sabia com o quê.
Acontece, às vezes. Comigo também.
[18.01.2009]
e não consegui.
Suas mãos frias, eu não pude reter.
Moveu-se para frente.
Balançou-se.
Gemeu.
Abracei-a por trás.
Aproximei sua cabeça do meu peito.
Soluçou.
Fechei meus olhos e continuei a segurar seu rosto.
Docemente.
Gentilmente.
Acalmou-se. Um pouco.
Não olhou para mim.
Olhava para dentro de si.
Para além.
Sonhara.
Eu sabia com o quê.
Acontece, às vezes. Comigo também.
[18.01.2009]
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